A Liberdade tem data marcada?
Uma reflexão sobre os excessos e a autenticidade no Carnaval. Entre fantasias e o medo do assédio, como a "diversão obrigatória" revela nossa dificuldade de viver o ócio е a liberdade no cotidiano.
Beatriz Ribeiro
2/9/20262 min read


Faltam poucas semanas para o Carnaval. Como este ano ele cai logo no início de fevereiro, sinto que muita gente está com a vida "em pausa", esperando a quarta-feira de cinzas para os planos realmente saírem do papel.
Eu, particularmente, não sou daquelas que "pula" todos os dias. Mas gosto de escolher um bloco ou outro para me aventurar. Nesses dias, coloco minha criatividade em prática: crio minha própria fantasia e levo meu corpo para a rua com coragem e autoestima.
É um misto de sensações. Às vezes é pura diversão; outras vezes, sinto um nó de preocupação. Medo de assalto, claro, mas também de assédio — já que o corpo feminino, já tão sexualizado, parece virar "domínio público" na folia. Mas, para além disso, o que me faz parar para pensar são os excessos.
Sabe aquela sensação de que precisamos viver tudo intensamente porque "é Carnaval"? Às vezes, a preocupação é tanta que meu único desejo é que todos voltem para casa bem e que o máximo de problema seja uma ressaca no dia seguinte (risos).
O Carnaval quase nos convoca a esse excesso. Dizem que é o momento onde as classes sociais se misturam e as fantasias permitem que a gente escape de quem é. É a "diversão obrigatória": megablocos, passistas, o brilho da Sapucaí... Tudo parece dizer que agora podemos ser autênticos.
Mas aí vem a pergunta: por que a liberdade de ser quem somos precisa de data marcada?
O filósofo Byung-Chul Han nos lembra que vivemos em uma sociedade que limita tanto a diversão que, quando ela acontece, vem com uma carga de "liberdade excessiva". O tempo livre vira algo que precisamos "gastar" produtivamente, até mesmo na festa. Se não nos divertirmos ao máximo, parece que estamos perdendo tempo.
Minha proposta é invertermos isso. Que tal se o Carnaval fosse o símbolo para começarmos o ano com mais alegria e autenticidade, mas sem deixar que esse espírito fique preso só a esses quatro dias?
Ocupar a rua, rir e descansar são tecnologias de cura. O Carnaval é resistência e criatividade popular, mas a nossa liberdade de ser não deveria precisar de autorização nem de calendário.


