8 de março - Queria poder falar sobre flores, mas hoje falo sobre revolta.

Chega de silêncio. Neste 8 de março, trocamos as flores pela denúncia e a celebração pela revolta. Um desabafo urgente sobre os números da violência contra a mulher no Brasil e a necessidade de transformar indignação em mudança estrutural.

Bruna Sales

3/5/20263 min read

Eu poderia começar falando sobre a história de como esse dia ficou marcado, das operárias, das lutas e conquistas, no entanto, minha escrita hoje serve como um desabafo.

Aproveito esse dia marcante, para compartilhar um sentimento que há tempo vem me rondando: revolta.

Se procurarmos no dicionário, podemos encontrar como significado um forte sentimento de indignação, raiva ou revolta moral. E é exatamente assim que estou me sentindo nos últimos tempos.

Aí vocês podem me perguntar o motivo.

E eu vou responder: está cada vez mais difícil ser mulher.

Vamos aos dados.

Em 2024, o Brasil registrou cerca de 1.450 casos de feminicídio, e mais de 71.000 estupros. Em 2025, o aumento foi de 34% segundo dados da Agência Brasil. E, neste início de 2026, o que vivenciamos é uma enxurrada diária de notícias sobre feminicídios, tentativas de feminicídio, violência física e sexual.

Mulheres, mulheres adultas, meninas, adolescentes.

Eles matam e agridem porque ouviram um “não”, porque não são correspondidos, porque traem, porque são traídos. Sempre tem uma “desculpa” para se sentirem no direito de encerrar uma vida.

É importante dar nomes às coisas: o homem que comete esse crime não tem, necessariamente, uma patologia. Ele é apenas homem. E como homem, foi socializado em uma cultura que o ensinou a agir de forma violenta, como se fosse uma resposta possível e aceitável, diante da frustração ou do confronto.

A violência contra mulheres não é um acidente social ou algo feito por “monstros”.

Ela nasce, se alimenta e se reproduz em estruturas patriarcais que naturalizam a violência de gênero, normalizam atitudes e comentários misóginos, culpabilizam e silenciam vítimas e reproduzem desigualdades raciais, sociais e econômicas.

Como afirma Marcia Tiburi: “É um fato que a violência contra mulheres é uma constante cultural e continua a crescer em todas as sociedades.” (2019, p. 106)


Mesmo com leis importantes que punem a violência doméstica e familiar, como a Lei Maria da Penha, os mecanismos ainda são insuficientes enquanto não houver uma mudança na cultura profunda baseada em respeito, educação e responsabilização.

Para lidar com essa revolta e elaborar o que sinto, me sustento na luta.

Pois, como nos lembra Audre Lorde:

“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.”

Mas essa luta não pode ser apenas entre quatro paredes, nem reduzida a um post no Instagram.

É urgente educar sobre consentimento e respeito desde cedo, para meninos e meninas.

É preciso fortalecer redes de apoio para mulheres em risco.

É necessário exigir políticas públicas eficazes e acolhimento real às vítimas - nesse caso vale lembrar que estamos em ano de eleições.

É fundamental ampliar vozes negras, periféricas, trans e de mulheres em situação de vulnerabilidade.

Para finalizar, deixo aqui um trecho de Manuela d'Ávila:

O feminismo é uma jornada de amor. O primeiro, por vezes doloroso para nós mulheres, o amor-próprio. O segundo, o amor pela ideia de que podemos ser livres para viver a potência de nossas possibilidades. O terceiro, o amor pela humanidade em toda sua diversidade.” (2019, p.15)

Lembremos: nós, mulheres, somos potência. Quando estamos juntas somos capazes de mover estruturas.

A revolta me movimenta, mas é a esperança que me mantém na luta por dias melhores.

Que o 8 de março não nos suavize.

Que nos mobilize.

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Reportagens sobre feminicídio e violência contra a mulher, 2024–2025.

Audre Lorde
LORDE, Audre. Sister Outsider. Berkeley: Crossing Press, 1984.

Márcia Tiburi
TIBURI, Márcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

Manuela d'Ávila
D’ÁVILA, Manuela. Revolução Laura. São Paulo: Planeta, 2019.